sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

O susto (última parte)

19 FEVEREIRO 2015, 19:08
A sala de ressonância estava gelada por conta do ar condicionado necessário para manter o equipamento. Um enfermeiro negro me deu o colete de chumbo e uma proteção para o pescoço. Perguntei se tinha algum problema, eu estar todo vomitado. "não... Depois a gente limpa", ele disse. Estávamos em 5 ou 6 pessoas mais o André.
Encostaram a maca ao lado da mesa da ressonância, perto da maquina, que me lembrou um enorme donut. O André continuava sonolento, mas já respondia mais, tanto que quando o anestesista falo em colocar o André na mesa ele, meio desajeitado, tentou engatinhar da maca para a mesa. Todos, muito preocupados com sua condição o impediram de continuar, apesar dele já estar de 4. Enquanto os médicos e enfermeiros o ajeitavam na mesa, uma enfermeira sugeriu que eu ficasse do outro lado do donut, para acalma-lo durante o exame, mas o túnel, por menor que fosse, ainda era muito grande, e pediram para que eu voltasse para o outro lado.
 A médica que estava coordenando o exame achou melhor tirar o colar ortopédico. Nessa hora, o André chorou de novo, me procurou, mas acho o enfermeiro, segurou sua mão e soltou. Sua expressão ficou assustada até que ele me achou, "ei, eu estou aqui" eu disse, e ele relaxou e dormiu de novo. "plasil dá sono" disse a enfermeira. Apesar do transporte e do exame, o soro ainda estava ligado ao seu braço.
 Aproveitando o sono do André, a médica prendeu suas pernas, e seu tronco e sua cabeça à mesa com enormes tiras de velcro gasto. Ligou uma luz vermelha que projetou uma cruz na testa do André e centralizou sua cabeça na mesa.
 Todos saíram deixando eu com o colete de chumbo que agora também cheirava a suco de laranja azedo, e um André amarrado a mesa e tremendo ligeiramente de frio. Depois de passar uma vez com a cabeça dentro do donut, a mesa parou. Passei a mão em seu braço... Arrepiado.
O enfermeiro negro entrou na sala com um lençol grosso."Ele está tremendo de frio." eu disse, e cobrindo o André com o lencol, ele respondeu "é o ar condicionado para o equipamento". Ele saiu da sala e o André entrou e saiu mais umas duas vezes, quando o lençol fez efeito e ele relaxou, tirando a cabeça do esquadro. A médica entrou na sala acompanhada do enfermeiro, "Vou pegar a orelhinha" disse. Saiu da sala e voltou com uma espuma preta, e usou como calço para fixar a cabeça do André. "O cérebro está normal, agora vamos ver a cervical. " E lá foi o André para o donut de novo.
Terminado o procedimento, o anestesista me disse que estava tudo certo, não tinham detectado lesão no cérebro nem na cervical." Graças a Deus " pensei.
Saí da sala enquanto eles colocavam o André de volta na maca, e vi a Dri do lado de fora da sala. Ele estava sentada, com olhos vermelhos de chorar e uma expressão triste, mas aliviada. " Os médicos disseram que não tem nada errado com o cérebro dele, nem com a cervical ", ela disse antes que eu pudesse dizer algo."eu ouvi eles conversando." completou. "O André vai ter que ficar em observação na uti".
 E lá fomos nós para uti, seguindo a maca. Não nos deixaram entrar logo de cara. Precisavam preparar o André antes. Nisso, aquela mesma senhora que tinha feito aquelas previsões horríveis saiu da uti e veio falar com a gente. Quando ela começou com aquela mesma ladainha pessimista, eu admito que "divaguei pra Lalaland". Meu corpo estava lá, eu estava olhando para ela, mas não registrei nada além de algumas palavras como quadro reverter, piorar, etc... Ela falou um pouco, não obteve reação minha ou da Dri, e foi embora. E não a vi mais. Alguns dias depois a Dri disse que ela nem médica era. Era apenas uma burocrata do hospital. Que cuidava das internações ou algo assim. Nos chamaram para uti.

Admito que fiquei sem jeito de entrar, afinal eu cheirava como uma laranja podre, mas a Dri me convenceu a entrar, fez uma lista de coisas para pegar em casa e eu saí, para voltar pra casa, tomar um banho e voltar com as roupas do André , o livro que ela estava lendo e as pomadas que a Dri precisava passar por conta da cirurgia que tinha feito duas semanas antes.
Na recepção, encontrei minha sogra, o William, o pastor Wilde, Toninha sua esposa e seu filho Jonatha, e o Pedro, que logo veio me abraçar. Tentei tranquilizar a todos, falando do resultado da ressonância, que ele já estava fora de perigo, etc... Mas aquela preocupação continuou no ar, o que era perfeitamente normal.
Com muito custo, convencemos o Pedro a ir dormir na casa da minha sogra.
Depois do banho, voltei ao hospital e eu e a Dri concordamos que seria melhor se eu passasse as noites na uti, afinal a Dri ainda estava em recuperação da pequena cirurgia que tinha sofrido há alguns dias e tinha que se cuidar.
Na primeira noite ela ficou em casa com minha cunhada e na noite seguinte, na casa da Lis, uma amiga nossa
A recuperação do André foi tranquila. Ele acordou no dia seguinte sem se lembrar de nada, não sabia como tinha chegado ao hospital, e segundo a Dri, que estava com ele na hora que acordou, ele logo perguntou quando chegaria a comida.
No dia seguinte só não pode ir direto para casa por questões internas do hospital. Não se pode dar alta direto da uti para casa.

 Por um mau costume meu, não sei o nome de ninguém do hospital municipal de Santo André, ou por não ter perguntado, ou por não ter registrado, mas sou grato a Deus pela vida de cada um, por sua presteza, eficiência, gentileza e cuidado. Que Deus os abençoe.
Obrigado também a todos que com suas mensagens de incentivo e orações e ações, desde estar conosco, passar em casa, ligar, abrir sua casa para que a Dri não ficasse só, cuidasse do Pedro ou ficasse na uti para que nós pudéssemos descansar um pouco, colaboraram para que nosso pequeno ficasse bem, não vou citar nomes para não esquecer ninguém. Louvo a Deus pela vida de cada um de vocês.

Tenho uma dívida enorme de gratidão com o Pedro que foi um herói naquela noite, se não fosse ele estar perto do irmão não sei o que teria acontecido naquela noite.

Agradeço a Dri, que apesar de todo o desespero que sentiu no começo, sempre escolheu as opções corretas de como me orientar a posicionoar o André, quando ele estava com dificulades de respirar, Toda sua diligência a abrir a casa para os bombeiros, e deixar as passagens livres. Todo o cuidado na UTI e a vigilância sempre. A ela todo meu amor e carinho.

 Não poderia deixar de agradecer a Deus, que me deu uma calma e uma tranquilidade sobrenatural, Ele conseguiu segurar minhas emoções, para que eu não me abalasse um minuto sequer. Desde o momento que o André chorou a primeira vez, ainda no sofá de casa logo que eu o livrei das cordas da persiana, eu tive, bem lá no fundo, uma certeza que ele iria ficar bem, que só Deus poderia ter me dado. A Ele toda a Glória e Louvor.

E quanto ao André? Ele está bem, como se nada tivesse acontecido. A Dri perguntou para ele o que houve, e ele disse que estava brincando de Homem Aranha numa luta contra o Doutor Octopus, que ele escorregou e que a partir daí não lembra mais de nada. É... Não foi dessa vez que o Doc Ock venceu nosso herói... Ainda bem.


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